23 de Maio: Dia do Jovem Constitucionalista
O dia 23 de maio é uma data importante para a democracia
brasileira. Neste dia, em 1932, quatro estudantes paulistas foram mortos
num confronto com a polícia. Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo se
manifestavam contra a ditadura de Getúlio Vargas.
A morte deles
foi o estopim de uma revolta paulista contra o governo e a favor de uma
constituição. As iniciais dos nomes dos quatro estudantes, MMDC,
passaram a ser o símbolo da revolta de São Paulo que eclode em 9 de
julho e passa para a história com o nome de Revolução Constitucionalista
de 32.
Em tempo de autoritarismo: Um brado Constituinte.
Antes de falar sobre a Revolução Constitucionalista de 1932, é preciso
voltar alguns anos na história para buscar os embriões deste que foi um
dos maiores movimentos armados da história do Brasil. Durante a
República Velha (1889-1930), formou-se uma aliança entre os estados mais
ricos e influentes do país na época, São Paulo e Minas Gerais, cujos
representantes alternavam-se no posto da presidência da república
naquilo que ficou conhecido como a "política do café com leite". Em
1930, porém, o presidente Washington Luís, representante dos paulistas,
rompe a aliança com os mineiros e indica o governador de São Paulo Júlio
Prestes como seu sucessor, que venceu as eleições. As oligarquias
mineiras não aceitam o resultado e, por meio de um golpe de estado
articulado com os estados do Rio Grande do Sul e da Paraíba, colocam
Getúlio Vargas no poder.
"Getúlio vem com uma nova proposta de modernização do país. O grupo que
chega ao poder pretende promover essas mudanças de maneira autoritária,
sem consultas eleitorais", conta Alexandre Hecker, professor de História
Contemporânea da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da
Universidade Mackenzie. O novo presidente fecha o Congresso Nacional,
anula a Constituição de 1891 e depõe governadores de diversos estados,
passando a nomear interventores. As medidas desagradam profundamente as
elites paulistas tradicionais. "Esses grupos, que eram ligados ao
Partido Republicano Paulista (PRP) e haviam sido derrotados pela
revolução de 1930, passam a trabalhar em oposição ao governo de
Getúlio", diz Alexandre. Já, a partir de 1931, se junta a essa elite
deposta um "grupo mais moderno", que exige do governo a criação de uma
carta magna que regesse a legislação do país - algo que Vargas vinha
adiando cada vez mais - além de eleições gerais para presidente da
república.
Ao mesmo tempo em que se formava esse grupo opositor, fortaleciam-se, em
São Paulo, os chamados tenentistas, constituídos não apenas por
militares, mas também de civis que agiam sob sua liderança. "Eles se
reuniam no Clube Três de Outubro e apoiavam as ações do governo",
explica o professor. "Havia diversas brigas de rua entre os estudantes
do Largo São Francisco e esse grupo getulista, os tenentistas". No dia
23 de maio, essas forças se encontraram e se defrontaram nas ruas de São
Paulo, o que resultou na morte de alguns estudantes em praça pública,
que ficaram famosos como MMDC (sigla das iniciais dos quatro jovens
mortos: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Mais tarde, adicionou-se a
letra A, de Alvarenga, ao final da sigla, de outro jovem que acabou
morto por causa do conflito).
Essas mortes foram o estopim que deu início no dia 9 de julho de 1932 à
Revolução Constitucionalista. Com a ajuda dos meios de comunicação em
massa, o movimento ganha apoio popular e mobiliza 35 mil homens pelo
lado dos paulistas, contra 100 mil soldados do governo Vargas. "Havia
uma possibilidade de que outros estados viessem em apoio ao governo do
estado de São Paulo, mas ele ficou isolado e, com isso, se desenvolveu
uma série de batalhas", destaca Alexandre. Foram quase três meses de
batalhas sangrentas, encerradas em 2 de outubro daquele mesmo ano, com a
derrota militar dos constitucionalistas. "Moralmente, porém, em termos
de denúncia política, o movimento foi vencedor, porque logo depois do
término do conflito, o governo federal convocou eleições para uma
Assembleia Constituinte, que promulgou a Constituição do Brasil em 1934.
Foi também quando, pela primeira vez no país, as mulheres participaram
do processo eleitoral", ressalta o historiador.
O termo "revolução" para o movimento constitucionalista não é muito
adequado àquilo que se propunha fazer, segundo o professor. "Não era uma
revolução. Na verdade, desejava-se a normatização da legislação e do
processo eleitoral, e não uma mudança no sentido de alteração das
relações de poder ou qualquer coisa que significasse uma limitação no
processo de desenvolvimento capitalista", afirma. Ele diz que, para
alguns historiadores, o movimento é considerado até conservador e
anti-revolucionário. "Era uma elite derrotada que queria voltar ao poder
e encontraram nesse movimento uma desculpa para isso".
Fotos: Acervo do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo
Fonte: Revista Nova Escola. Abril.com.br.

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